quarta-feira

Mais a Leste

O Sol de Janeiro deixava uma côr límpida e fria na paisagem da longa planície verde, ponteada de solenes mas despenteados sobreiros. No cimo da lomba foram crescendo e ganhando forma as almofadas bordadas na chapeleira dum cinzento e pequeno familiar.
O Sr. Cascalheta tinha provado o vinho e sentia-se agora como ele, novo. E acelerava em conformidade, nos longos e moles 80 de velho e ferrugento bambolear de Fiesta. No interior, o ar irrespirável de três Kentuckys apagados misturava-se com uma camada de poeira amarelada que anos de vida sobre todo o interior visível haviam tornado à prova de panos do pó.
Os amortecedores cansados incentivavam o bambolear e a descida, pela lomba fora, tornara-se numa acelerada indecisão em direcção ao meu desportivo. Este, surpreendido por tanta ululante e ainda empoeirada almofada, decidira divergir rapidamente mas, ainda assim, não a tempo de evitar o susto e a manobra, suicidária e em curva, do sr. Cascalheta.
Os ruídos foram seis ou sete, já não sei precisar, e demarcaram-se temporalmente de forma individualizada; um por cada vez que o carro, após mais uma voltareta de sugar poeira, tocara de novo o solo da fronteira entre a estrada e a incrédula planície. Os sons tinham sido uma mistura de metal que se esmaga com vidro que estala e, presumo que no último estrondo, castigados por um grito humano.
Parei por momentos na beira da estrada. A fúria acelerada que ali me levara tinha-me dado uns 10 minutos de avanço sobre eles. Uma aparente pequena paragem de...mais de 20 anos, pensei. Decidi arriscar pouco; enquanto acelerava, liguei o 112. "Que se lixe!", pensei. "A seguir a Vendas Novas, nas lombas", ditei à voz que me atendera. E, a fundo, embrenhei-me na paisagem.




1 comentário:

Luciano Rodrigues disse...

Gostei do Blog, e espero que goste do Blog do Belenenses. Um abraço e continue.